quarta-feira, 20 de abril de 2011

"L'amour est enfant de Bohême. L'amour est un oiseau rebelle", gênios sensíveis!


Sou louca pela voz da Aziza Mustafa, a princesa do jazz. Esse dueto com Bobby McFerrin ficou indescritível! Os dois cantando minha música preferida, Habanera (aria) - Bizet.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Blue Angel


Meus anjos amanheceram quebrados, me entrego nos braços de uma memória qualquer. Ela me desnuda, eu te des-perto. Fazemos amor da nossa mudez. Enquanto muda, meus dedos falhos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Em nome do Pai

Quatro patas. Numa delas, a ferida aberta, purulenta. Ficou admirado, tocado ao observar um cachorro se aproximando e lambendo, quase com carinho, as cascas e a pele exposta do outro; e como se contemplasse um quadro, limitou-se a lamber as próprias feridas. Roubava das paisagens algo que o tornava pequeno, sempre pequeno. Tinha uma feição mundana, e por isso passava desapercebido pelas ruas. Como não chamava atenção e achava uma fraqueza de caráter querer chamar atenção, aceitara o seu fado e sem uma queixa. Por sorte, era um cara abastado, de dinheiro, herança de uma tia, e com ela comprou, entre outras coisas, um anão negro que guardava em seu armário. Todas as noites destrancava a porta e ficava de quatro em frente ao anão. Aprendeu a respeitar de uma maneira tão intensa sua mediocridade que passou a amá-la de forma patológica.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Desencontro de assombrar

Quando me vê; Emília perde a língua.

decerto, esta noite, Godot não vem.


quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Às de Copas

...e cinco de paus:

Quando me calo
o ato falho
é o falo sem ato

tome tento

sábado, 9 de outubro de 2010

Imagine

Não sei dos teus pousos, nada de suas asas, sinto aqui imagens do teu breve cantar. Tanto que nada sei, quanto só é imaginar. Neste, e somente neste imaginar te sonho e te parto os lábios num beijo. Tudo que sou é amar o que não vejo, mas quando o rio é desencontro, do que vale teu mar?

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Te Apressas

Conscientemente penso, analiso e questiono se devo abrir a porta. Inconscientemente encontro a mesa já posta. Se hesito mais um pouco encontro a mesa vazia sem se quer ter aberto a porta. Por pouco, bem pouco não ligo as engrenagens do refluxo. Mas há mais de uma pessoa e há tantas outras nesse desamar. Espere, me espere tu que segues sempre correndo. Aperto o passo, aperto mais e ele sufocado começa a gritar. E grita desesperado. Tropeça. Caído berra ao ouvido surdo dos seus: Pare!

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

A elas mistério...

As mulheres mais discretas do mundo são aquelas que não têm nenhum segredo e ainda assim seguem cheias de mistério. Pois farei uma confissão. Mistério é forma, não conteúdo.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Zero

Esbjörn Svensson Trio: From Gagarin's Point of View

Adorada a noite que invade os bares, chega rasteira e passa por debaixo da porta antes dela se abrir. Uma vez aberta, sigo para o piano. Pequena luz azul ilumina e reflete sobre o corpo preto. Vai revelando pela metade a face, uma por uma, de quem entra. É sempre bonito ver apenas uma parte. Eis minha única exigência; frente ao piano, duplas caras e ela. Motivo. Quero todos inteiros e no 'meio-tom' começo a tocar. Minhas notas afundam na sua pele, puxando suas pernas. O som em si cresce mais e seu corpo vibra em silêncio, ondulando espelho aos meus dedos. A música termina e sob o piano abismo e dor. Tenho algo pela metade. Um desejo e uma paixão que se curvam à sombra e fenda azul. Os dedos mudos e com angustia querem ir além do som, mas caiem no vazio.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Take me back


Em frente ao piano, arranhando algumas teclas quando ela chegou bem mansinho. Pousou seus cotovelos sobre a cauda do piano e eu as mãos sobre a dela. Fui deslizando a face sobre suas costas. "I'm a fool to want you..." Estacionei em uma curva qualquer e me perdi. Um, dois, três. Suspiro. Suspiro é mais que vertigem, é mais que tesão. Doce e calmo choro. De joelhos abraço forte, cada vez mais forte e faço minha prece. Sua perna inicia um movimento leve e seu corpo segue deslizando pelo piano até o chão. Agora de joelhos minhas mãos que apertavam sua cintura tocam seus seios e meu queixo pousa feito borboleta sobre seu ombro. Delicadamente segura minhas mãos e com toda calma me entrega de pouco em pouco seu corpo. Minha mão perde a razão de ser, escorre tonta pela sua cintura, pelas suas pernas. Molho a mim e a ti. Tu se perde e parte.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Milonga del Angel


As mil mesclagens, complementações de não sei o que com não sei onde.
Cavalo Alado dançante; vícios e mais vícios. De linguagem, de toque, de cheiro...
Um Anjo travestido, vezes Mulher, outras sublime, distante. Dançam sua milonga:
O cavalo, a mulher, o anjo. Não sabem quem, o que ou quando!

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Minha paixão

Um beco, um tango, uma faca
lâmina meia luz entre as pernas
devorando a minha lingua faminta
resvalando entre os dentes a peça
espasmos, espasmos, espasmos
Meu desejo tem quatro patas
é gata selvagem e troteia sobre mim.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

De onde vêm as formigas?

Eu e minha família sempre fomos muito desastrados, mas há algo de peculiar nos nossos desastres. Uma vez nos levaram ao psicólogo para descobrir a causa. Não obtivemos nenhuma resposta, mas acredito que temos inconscientemente uma vontade de ver formigas. Por isso as únicas coisas que derrubamos têm algo de doce. Compramos uns três quilos de açúcar por semana, já que dois quilos sempre acabam no chão. As formigas são seres misteriosos. Até hoje não descobrimos de onde elas vêm. Cada gota de leite condensado ou floquinho de açúcar delatam lugares novos por onde elas aparecem. Reparei que para mudar de lugar, o intervalo entre uma e outra coisa que cai deveria ser um pouco extenso. Logo resolvi derrubar em menos tempo, as três vezes saíram do mesmo lugar. Fui correndo seguir a trilha. Já estava certo que encontraria. Atravessei a janela e encontrei toda trilha saindo do Julius, meu cachorro. Pensei que ele estivesse guardando a passagem. Quando cheguei bem perto levei um susto. As formigas cresciam debaixo de suas unhas, iam se amontoando aos poucos até a unha não suportar. Julius dava uma mordida na unha e rompia uma espécie de bola transparente, algumas formigas morriam em sua boca, enquanto outras caíam no chão, formavam a fila e iam para cozinha.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Let's Fall In Love

Sentada em minha escrivaninha, contemplando as gotas que escorriam pela janela. Calça apertando o centro. Amor biônico, amor platônico. Materializando em meu caderno os momentos nunca vividos, antes que fiquem perdidos no tempo como lágrimas na chuva. Não, não é hora de morrer. Diga sim à imaginação, às vontades, aos desejos que exalam desse roman à clé. Te acalma, minha loucura! O vento de julho dá arrepios, os pelinhos da nuca gritam de pé: Venha a mim criança! Passa dura por cada ser que encontra pela rua. De todas escolhas quero o peso, o lindo peso de tê-la em meus braços. Ser sendo irresponsável. Cativa, seduza, tome num gole esse pequeno pecado. Dance, cante pequena criatura, deslize todo esse prazer na ponta dos dedos. Me enlouqueça. Não, nunca é tarde, nunca é seguro se entregar. Abro-me chave por chave. Oh, let's do it, let's fall in love...

terça-feira, 29 de abril de 2008

Gustav Flaubert

"Escrever um livro sobre o nada, um livro sem relação com o exterior que se sustentaria apenas pela força interior de seu estilo, como a terra se sustém no ar sem ajuda. Um livro que quase não tivesse assunto, ou ao menos no qual o assunto fosse quase invisível, se alguém pudesse fazer isto. As obras mais formosas são aquelas que carecem praticamente de matéria. Nelas mais a expressão se aproxima do pensamento, mais a palavra desliza e desaparece."

As Cidades e os Símbolos

"De todas as mudanças de língua que o viajante deve enfrentar em terras longínquas, nenhuma se compara à que o espera na cidade de Ipásia, porque não se refere às palavras mas às coisas. Uma manhã cheguei a Ipásia. Um jardim de magnólias refletia-se nas lagoas azuis. Caminhava em meio às sebes certo de encontrar belas e jovens damas ao banho: mas, no fundo da água, caranguejos mordiam os olhos dos suicidas com uma pedra amarrada no pescoço e os cabelos verdes de algas. Senti-me defraudado e fui pedir justiça ao sultão. Subi as escadas de pórfido do palácio que tinha as cúpulas mais altas, atravessei seis pátios de maiólica com chafarizes. A sala central era protegida por barras de ferro: os presidiários com correntes negras nos pés içavam rochas de basalto de uma mina no subsolo. Só me restava interrogar os filósofos. Entrei na grande biblioteca, perdi-me entre as estantes que despencavam sob o peso de pergaminhos encadernados, segui a ordem alfabética de alfabetos extintos, para cima e para baixo pelos corredores, escadas e pontes. Na mais remota sala de papiros, numa nuvem de fumaça, percebi os olhos imbecilizados de um adolescente deitado numa esteira, que não tirava os lábios de um cachimbo de ópio.

-Onde está o sábio?

-O fumador apontou para o lado de fora da janela. Era um jardim com brinquedos para crianças: os pinos, a gangorra, o pião. O filósofo estava sentado na grama. Disse:

-Os símbolos formam uma língua, mas não aquela que você imagina conhecer".

CALVINO, Italo. As cidades e os símbolos, In: As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990, p.47-48.